segunda-feira, 14 de maio de 2007

Grupo de trabalho da oficina

Texto para leitura

A lógica dos contextos e o ciberespaço
Beatriz Corso Magdalena
Iris Elisabeth Tempel Costa

“Uma verdadeira viagem de descobrimento não é
encontrar novas terras, mas ter um olhar novo” Marcel
Proust

A transmissão de informações, na comunidade humana, sempre foi
dependente das tecnologias disponíveis. Começamos com a fala, evoluimos para as
representações icônicas, para a escrita e dela para o texto impresso. Estas
tecnologias determinaram não só o alcance da disseminação das informações
disponíveis em diferentes épocas, o suporte em que ficavam registradas (de modo
mais ou menos efetivo), como também instituiram relações de poder entre o
“emissor” e os “receptores”, destas informações
.
O que acontece com o advento das tecnologias digitais?
Passamos a contar com um novo e surpreendente espaço para trocas sóciocognitivas
e um novo suporte para o armazenamento de informações que
representam a diversidade humana. No ciberespaço, por exemplo, todos podem
escrever e publicar. Não há, ao menos no momento, o crivo de um grupo de
editores que nos dizem sobre o que vale a pena escrever, quando escrever e para
quem. Neste meio, em tese, escritores e aspirantes têm as mesmas possibilidades e
direitos1. Podemos optar por “ser, não só, protagonistas passivos de um processo
público de comunicação, mas elementos ativos de um intercâmbio complexo ”.
1Artigo publica na Revista Pátio, Ano VII, nº 26. Maio/Julho 2003, p. 17/21, Porto Alegre:Editora ArtMed.
2 Magdalena, B. & Costa, I.E.T. Internet em sala de aula:com a palavra os professores. Porto Alegre:ArtMed,
2003.
3 Cebrián, J. V & Quirós, J. L. Q. Participacion Politica: de la Participacion Presencial a la Virtual (la
manifestación a través de Internet) Disponível em: http://comunidad.derecho.org/congreso/ponencia22.html

Na Internet e, em menor proporção, na TV, a veiculação de informações
ocorre em vias de mão dupla que tanto trazem notícias de outras comunidades
para dentro de nossas casas quanto divulgam, em âmbito mundial, os nossos fatos
e problemas locais, ampliando o que entendíamos por “nosso contexto”.
Esta rede, que interconecta pessoas de diferentes espaços e culturas, expõe a
existência de tensões culturais, políticas, econômicas e religiosas, mostrando, de
um lado, que vivemos em sociedades que apresentam algumas características e
metas comuns e, de outro, que existem trajetórias diferentes, interesses
conflitantes, a diversidade, o particular. Esta complexidade, posta a nu pelos meios
de comunicação, torna cada vez mais evidente que o convívio humano, a
manutenção ou o acesso à qualidade de vida, a evolução tecnológica e a
concomitante necessidade de preservação do meio, resultam em problemas
multidimensionais, polifacetados, globais, planetários, que, na maioria das vezes,
não conseguimos resolver a partir de uma visão unilateral. Mesmo aqueles
problemas que são aparentemente locais, para serem entendidos, precisam ser
inseridos em um contexto que, cada vez mais, se expande e se insere em outros
contextos.
Se não formos capazes de fazer essa nova leitura, que supõe “ver” o
complexo, poucas chances teremos de avançar no sentido da compreensão dos
problemas. Para que isso possa acontecer, é necessário que se resolva a questão do
olhar reducionista, disciplinar, que nos impede de compreender as realidades de
modo mais efetivo e atrofia as nossas possibilidades de reflexão e julgamento,
instrumentos capazes de oferecer correções de rotas a longo prazo.
Portanto, o grande desafio atual é reconhecer a complexidade e amplitude
dos fenômenos, compreender seu verso e seu reverso, compatibilizar dimensões,
estudar os processos, buscando entender suas interrelações e acompanhar a
acelerada produção de informações e novos conhecimentos, favorecidos e gerados
pelas trocas sócio-cognitivas em rede, disponibilizados pelos suportes digitais.
Parece claro que este enorme manancial nos torna, mais que nunca, eternos
aprendizes e traz sérias repercussões para a escola que ainda temos, ligada à
lógica de conteúdos, mais que a lógica de contextos.4
Para Morin5, essa mudança é essencial. A escola que trabalha sob o
pressuposto da lógica dos conteúdos, fragmenta o mundo a partir do
“retalhamento pelas disciplinas (no ensino), tornando impossível apreender "o que
é tecido junto". Os alunos necessitam desenvolver esquemas de pensamento
capazes de compreender a complexidade dos fatos e fenômenos que
dinamicamente formam a rede contextual que nos cerca e dá sentido a nossa vida .
Para exemplificar, tomemos o problema da desertificação crescente em
várias regiões da terra. Resolver esta questão nos estados brasileiros, estejam eles
no nordeste ou no sul, exige muito mais que entender as questões locais de clima e
de presença de água. Outros fatores, ligados a mudanças nos ecossistemas
específicos (desmatamento, esgotamento do solo), ou a posicionamentos políticos e
econômicos de grupos centrais e periféricos (agricultura unidirecionada nos
periféricos e proteção nos centrais), fazem parte do tecido de causas que resultam
na formação de desertos, mesmo em zonas onde o sistema de chuvas é adequado.
No caso do Rio Grande do Sul, por exemplo, a desertificação de grandes áreas tem,
como uma das suas causas, a monocultura da soja que resultou de políticas
governamentais, interesses mercadológicos nacionais e internacionais e técnicas de
cultivo. Essa monocultura provocou o empobrecimento e esgotamento do solo que,
por sua vez, trouxe como conseqüência os fenômenos de erosão de solo e posterior
influência no sistema de chuvas das regiões. Esse fenômeno teve forte influência
nos sistemas de exportação de grãos, o que se refletiu em problemas financeiros
para o Estado e para o país.
4 Figueiredo, A. D. A Sociedade da Informação na Escola. Lisboa:CNE, 1998.
5 Morin, Edgar. A cabeça bem feita:repensar a reforma,reformar o pensamento. Rio de janeiro, Bertrand
Russel, 2000.
Esta mudança de análise e compreensão, passando dos conteúdos para os
contextos, não é simples e Morin sintetiza esse desafio reformador da escola atual,
em um interessante impasse, resultante de idéias interrelacionadas que ora são
causa e ora são efeito:
“Não se pode reformar a instituição sem a prévia reforma das mentes, mas não se pode
reformar as mentes sem uma prévia reforma das instituições.(..) Como reformar a escola
sem reformar a sociedade, mas como reformar a sociedade sem reformar a escola?
Esse impasse, na nossa ótica, começa a ser superado por pequenos
movimentos desencadeados por grupos de professores de diferentes campos de
conhecimento que trabalham em conjunto com seus alunos e defendem uma nova
ordem curricular em rede, mais complexa, pluralista e imprevisível6. Estes grupos
entendem “os processos de desenvolvimento e de aprendizagem como sistemas
auto-organizativos, vivos, cujas características essenciais são a interação, que o
sujeito realiza com o meio circundante, e a transformação, que dela decorre”7.
Nesta perspectiva, apropriar-se das Tecnologias da Informação e da
Comunicação e usá-las, com todas suas peculiaridades, em sala de aula, intensifica
as atividades de interação mediadora8. Através desta tecnologia, professores e
alunos podem buscar e interagir com diferentes fontes de informação, a partir de
seus interesses e de desafios que fazem sentido por sua história pessoal e coletiva.
Este novo modelo de comunicação faz com que o cenário de aprendizagem
extravase a sala de aula, rompendo as barreiras do tempo e do espaço.
Contemplar a possibilidade de estabelecer interações multidirecionais,
necessariamente, faz com que o currículo transcenda as fronteiras das grades
6 Magdalena, B. C e Costa, I. E.T. (2000) Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia. Saberes.
Jaraguá do Sul:CESJS
7 Piaget em Doll Jr. , W. E. Currículo: uma perspectiva pós-moderna. Porto Alegre: Artes Médicas.
8 Nevado, R., Magdalena, B. & Costa, I. E. Formação de Professores Multiplicadores:
nte2@projetos.cooperativos.ufrgs.br, Informática na Educação Teoria & Prática. v. 2 n. 2: p. 127/139 Porto
Alegre:UFRGS, 1999.
programáticas, abrindo veios por e entre novas "janelas de conhecimento", que se
constróem além da disciplina, do horário rígido e do professor especializado9.
Outro meio interessante de superar a linearidade e a visão exclusivamente
disciplinar é trabalhar com conceitos que apresentam tal complexidade que se
torna impossível fechá-los em uma única área do conhecimento. São conceitos que
naturalmente invadem áreas muitas vezes limítrofes e outras vezes não, abrindo a
possibilidade de estabelecerem-se relações entre áreas de conhecimento
consideradas, a priori, bastante distantes. Por exemplo, o conceito transformação
tanto pode ser visto pela sua faceta química ( transformação de açúcar em energia)
como pela sua faceta social (nação dependente em nação interdependente). Essas
facetas podem estar relacionadas em um mesmo problema como, por exemplo, a
questão da superação da fome em uma nação.
A multiplicidade de faces, de um mesmo conceito, será tanto maior quanto
mais alunos estiverem expondo suas redes conceituais à criticas. Essa socialização
do pensamento individual para o coletivo, propicia que as trocas cognitivas
resultantes do processo de análise apareçam como novos elementos a balançar as
estruturas e sistemas mentais dos alunos em interação, facilitando o rompimento
ou transformação das mesmas e a sua reconstrução em níveis mais complexos.
Para ajudar na compreensão do que estamos trazendo, lembramos o
exemplo de Joseph O’Connor e Ian McDermott, usado por Mariotti10, com o
problema: “A Terra é plana?”
Houve um tempo em que se dizia: “É claro que sim, basta olhar o chão que
pisamos. Hoje, como mostram as fotografias dos satélites e as viagens
intercontinentais, teríamos que dizer: Ela é obviamente redonda.”
9 Magdalena, B. C. e Messa, M. Educação a distância e Internet em sala de aula. Revista Brasileira de
Informática Educativa n. 2 Florianópolis:UFSC, 1998.
10 Mariotti, H. Complexidade e Pensamento Complexo (Texto Introdutório). Instituto de Estudos de
Complexidade e Pensamento Sistêmico. Disponível em: http://www.geocities.com/complexidade/introd.html.
Acessado em Jan. 2003.
Neste exemplo, vemos que há mais de uma resposta (verdades) para o
mesmo problema e ela é dependente dos nossos instrumentos de leitura. Do ponto
de vista do pensamento linear, da noção espacial simples e imediata, a Terra é
plana. Em uma abordagem mais ampla, enriquecida por elementos vindos de
outras ciências e tecnologias (cartografia, satélites, viagens espaciais...), ela é
redonda. Assim, dependendo da amplitude do sistema de relações e do foco que
utilizamos, podemos afirmar, ao mesmo tempo, que a terra é plana e redonda.
Fica evidente que, à medida em que o nosso sistema de pensamento se
complexifica, mais conceitos entram em relações, maior a rede conceitual tecida e
mais nos aproximamos da realidade.
Nessa perspectiva, a ação interativa no ciberespaço pode ajudar a
aprofundar e enriquecer as possibilidades de trocas cognitivas que resultam em
esquemas conceituais mais amplos e mais próximos do real. Utilizar ferramentas
interativas como chat, fóruns, mail para desenvolver investigações cooperativas,
com grupos parceiros de outras escolas, em outros contextos, e discutir as ações,
resultados e conclusões gerados pelos próprios projetistas tem dado excelentes
resultados em muitas escolas da rede pública local e nacional.
Se vocês acompanharam atentamente o texto, já perceberam que evitamos o
termo multidisciplinaridade, e preferimos seguir na rota da complexidade do
pensamento, construída em função do entrelace de conceitos provenientes de
campos diferentes. Isso porque multidisciplinaridade, assim como, “suas
companheiras”, a interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade são conceitos de
difícil transposição para o contexto escolar. Segundo Morin, mesmo nas ciências,
estes conceitos são imprecisos.
Acreditamos, inclusive, que essa imprecisão, essa indefinição tem facilitado
equívocos freqüentes. Muitas vezes ouvimos falar em professores
interdisciplinares, em situações multidisciplinares e interdisciplinares. Na verdade,
isso não existe, o que temos são professores e situações pedagógicas que favorecem
a construção de novas coordenações e relações que cada um dos alunos,
internamente, desenvolve, em função da rede de conceitos que está tramando. Sua
ação provocadora e orientadora se expande ao utilizar a Internet como um meio de
trazer o distante e o local para dentro da sala de aula, abrindo janelas para que
múltiplas facetas de um objeto de estudo se exponham e sejam analisadas e
interpretadas. Esse seria um recurso que também propicia possibilidades maiores
para que o aluno “interdiscipline”.
Poderíamos finalizar dizendo que é necessário que os professores sejam
provocados para desenvolverem sua inteligência na direção do complexo, para
que saibam como provocar situações que desafiem seus alunos a evoluir nesta
direção. Desta forma, ambos, professores e alunos, terão o mundo mais perto e
melhor compreendido.